Dama de Ferro ?

Uma vez ouvi o desabafo de uma empresária que disse que o problema de ser uma mulher forte é que as pessoas esquecem que você tem sentimentos. Achei aquela frase profunda e verdadeira, e de alguma forma me identifiquei com aquela reflexão.

É engraçado que quando você apresenta resultados, as pessoas esperam sempre mais de você. Se seus projetos estão dentro do prazo, pode assumir outros. Se suas metas foram alcançadas, pode contribuir com mais. Ninguém pergunta sobre o esforço que você fez para alcançá-las, as horas dedicadas para realizá-las, as noites mal dormidas planejando e traçando alternativas. Ou simplesmente se preocupando.

Demandam de você um reforço nas ações que não estão sob sua gestão, mas como estamos todos no mesmo barco, não adianta o seu lado estar seco e o outro submergindo. O barco afundará com todos, não importa em que lado está, então você vai pro outro lado também, para não deixar os outros projetos e metas darem n'água. 

Isso porque sabem que podem contar com você, que você é comprometida e lida bem com a pressão. O problema é que você passa a viver a "crise do Severino". Não sabem quem tem perfil para um job ? "Chama o Severino!" E quando você vê, você está em tudo quanto é grupo de trabalho, projeto, novo negócio.

Seu perfeccionismo (e também orgulho) não permite que você faça as coisas pela metade, e  você mergulha em um ritmo de trabalho insano, mal consegue se alimentar, vive estressada, chega em casa sempre esgotada, quase um zumbi. Não tem tempo para o que é importante na vida. Não tem tempo para conviver com a família. Não encontra os amigos. Não consegue dormir tranquila. Não se permite relaxar. Não ri à toa. Não é você. 

E quando algo não vai bem, não importa toda a sua carga acumulada e o esforço que você fez. Nessa hora, a cobrança é implacável e desmedida. Dê um basta antes que você deixe de dar conta. Você consegue fazer um esforço extraordinário por um período de tempo, mas não consegue sustentar isso por todo o tempo. Tem que reconduzir as coisas para o equilíbrio, caso contrário, cedo ou tarde, perderá o controle da situação. Perderá uma parte importante de si mesma. 

Na semana em que assistimos ao sepultamento de Margaret Thatcher, mulher mais influente na política mundial no século XX, fiquei pensando naquele desabafo da empresária. Margaret Thatcher foi uma mulher forte, tanto que fez juz ao título de "Dama de Ferro", mas pagou um preço alto. O filme "Dama de Ferro" mostra que para conquistar seu espaço e fazer ser ouvida a sua voz, perdeu a infância dos filhos, os gêmeos Carol e Mark. Em 11 anos de governo, de 1979 a 1990, assumiu posições difíceis e dividiu opiniões. Era forte da porta para fora, porque sua posição não lhe permitia esmorecer, mas na intimidade sofria com a pressão que tinha sobre seus ombros. 
"Casa é o lugar onde vamos quando não temos nada melhor." (Margaret Thatcher, maio/1991)
Essa frase, proferida cerca de um ano após deixar o governo britânico, evidencia o que o trabalho significava para ela. Será que sua vida foi alicerçada no que realmente importava ? Será que ao final ela pôde dizer que teve uma vida feliz ?

E depois de toda uma vida dedicada à política e ao seu país, nos bastidores do seu funeral, ainda se discutia se ela merecia as honras militares que recebeu.

Tudo passa. O poder. O trabalho. Os parceiros. Só a família permanece. Mas se você cultivar. Se você der mais importância agora às coisas que passam, no futuro, a sua família terá passado adiante. Seus filhos terão seguido seus caminhos. Seu companheiro já pode estar longe demais, mesmo que ainda por perto. Seus irmãos podem não encontrar em você mais nenhuma afinidade. Seus pais podem não ter mais a mesma vitalidade. Nesse estágio, pode ser difícil reatar os laços desatados por anos e a sua casa pode não ser mais o seu refúgio. Cuidado para não se dar conta quando tudo tiver passado e só lhe restar a família. Poderá ser tarde demais. Porque a família não pode ser na sua vida o que restou. Tem que ser o que permaneceu por toda a vida.


Kinha
Kinha

A bagagem de uma mulher, esposa, mãe, executiva e viajante, com um pouco de tudo e muito de nada.

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